Uma tecnologia desenvolvida no Brasil permitiu que corações destinados a transplante fossem transportados por mais de seis horas e percorressem mais de 1.000 quilômetros, garantindo presevação segura e boa função do órgão transplantado, segundo estudo apresentado nesta semana durante o Congresso Brasileiro de Cardiologia, em João Pessoa (PB).
Os resultados confirmam que essa modalidade de preservação ajuda a enfrentar um dos principais desafios do transplante cardíaco no país, nas questões das distâncias entre doadores e receptores e na estabilidade da temperatura numa faixa benéfica às celulas do orgão. Em 2025, o Brasil realizou 427 transplantes cardíacos, segundo o Registro Brasileiro de Transplantes. Apesar do crescimento da atividade transplantadora, os procedimentos permanecem concentrados em poucos centros especializados e sete estados brasileiros não registraram nenhuma cirurgia desse tipo ao longo do último ano.
Na prática, isso significa que pacientes e órgãos frequentemente dependem de deslocamentos de centenas ou até milhares de quilômetros para chegar aos hospitais habilitados. Nesse contexto, aumentar o tempo seguro de preservação dos órgãos pode ampliar as possibilidades de compatibilização entre doadores e receptores.
A modalidade de preservação em faixa controlada já está disponível em outros países há mais de cinco anos. Os dispositivos existentes, validados e disponíveis comercialmente nos Estados Unidos, Canadá, Austrália e alguns países europeus e do Oriente Médio, são de natureza descartável. O custo varia entre 10 mil a 25 mil dólares por caso, valor inviável para a realidade do sistema brasileiro de transplantes, onde o pacote para todas as despesas de um transplante fica abaixo de 20 mil dólares (em torno de 100 mil reais). A tecnologia desenvolvida no Brasil foi concebida para ser reutilizável por centenas de transplantes, com vida útil de pelo menos cinco anos. O que reduz consideravelmente o custo por transplante comparado aos dispositivos estrangeiros.
A pesquisa avaliou os primeiros 27 transplantes cardíacos realizados com a tecnologia Taura, desenvolvida pela empresa gaúcha Biotecno, que utilizou o equipamento em mais de 50 transplantes realizados em três centros brasileiros.
Os dados foram apresentados pela cirurgiã cardiovascular Thamy Palacios, sob orientação de Juglans Alvarez, diretor cirúrgico do Programa de Transplantes Cardíacos do Instituto de Cardiologia do Rio Grande do Sul, em trabalho desenvolvido em parceria com o Instituto do Coração da USP (InCor), do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (HCFMUSP), sob a tutela dos médicos Samuel Steffen e Fabio Jatene.
Atualmente, a medicina trabalha com uma janela de aproximadamente quatro horas entre a retirada do coração do doador e o implante no receptor. No estudo brasileiro, destacadamente, alguns casos ultrapassaram seis horas de isquemia fria, período em que o órgão permanece sem circulação sanguínea, sem acarretar impacto clínico prejudicial após o transplante.“Os resultados iniciais mostram que conseguimos aumentar significativamente o tempo de preservação mantendo estabilidade térmica e bons resultados clínicos. Além disso, tivemos menos insuficiência ventricular direita, comum nos órgãos preservados em gelo. Isso permitiu ampliar a área de captação e buscar órgãos em distâncias maiores”, afirma Juglans Alvarez.
O trabalho foi realizado no Instituto de Cardiologia do Rio Grande do Sul e no InCor, atualmente dois dos três centros brasileiros que utilizam a tecnologia de forma sistemática. Durante todos os procedimentos avaliados, a temperatura dos órgãos permaneceu estável entre 4°C e 8°C, sem episódios de congelamento ou oscilações fora da faixa considerada ideal para preservação. Todo o período de preservação é registrado e documentado.
Outro dado relevante foi a distância percorrida pelos órgãos. Os trajetos entre doadores e receptores ultrapassaram 1.000 quilômetros. Em quase um terço dos casos analisados, os corações foram captados a mais de 500 quilômetros do hospital transplantador.
O impacto na fila de transplantes também tem sido revolucionário. O tempo de espera no Instituto de Cardiologia do RS baixou drasticamente. Hoje, quem entra em fila, tem seu coração transplantado em menos de 30 dias e a mortalidade zerou. “Ninguém faleceu por não ter conseguido um coração para transplante. Hoje, considerando a nova realidade, o Instituto de Cardiologia do Rio Grande do Sul pode receber mais ofertas do que o número de pacientes em lista, ou seja, se houvessem mais pacientes, mais transplantes teriam sido realizados. Muito relevante apontar que esses números colocam qualquer programa de transplante cardíaco na vanguarda. Os melhores centros mundiais têm mortalidade em lista de espera entre 5 e 10% e tempo de espera em fila entre 3 e 6 meses”, diz o cirurgião.
A tecnologia Taura utilizada no estudo emprega controle ativo de temperatura e monitoramento contínuo durante todo o transporte. Diferentemente dos métodos convencionais baseados em gelo, o sistema mantém o órgão dentro de uma faixa térmica estável, reduzindo riscos associados ao congelamento ou às oscilações de temperatura. O equipamento também oferece rastreabilidade em tempo real das condições de preservação e do trajeto percorrido.
“O Brasil possui dimensões continentais e isso sempre representou um desafio para a logística dos transplantes. Quanto maior a previsibilidade e a estabilidade durante o transporte, maiores são as chances de conectar um órgão disponível ao paciente que aguarda na fila”, afirma Lídia Linck, CEO da Biotecno.
Segundo os pesquisadores, os resultados clínicos observados são excelentes. A incidência de disfunção primária do enxerto foi de 7,4%, enquanto a mortalidade em 30 dias ficou igualmente em 7,4%. Apenas um paciente necessitou de suporte circulatório mecânico com ECMO após o transplante e apresentou recuperação satisfatória. “São números claramente superiores à média histórica dos transplantes cardíacos no Brasil e em consonância com os melhores resultados internacionais”, afirma Alvarez.
Embora os autores ressaltem a necessidade de estudos prospectivos com um número maior de pacientes, a experiência inicial sugere que o aumento do tempo e a qualidade de preservação representam avanço revolucionário para os transplantes cardíacos no Brasil. “Em um sistema onde cada hora influencia diretamente a viabilidade do órgão, ganhar horas adicionais de excelente preservação significa mais oportunidades para pacientes que aguardam um coração na fila de transplantes”, conclui Alvarez.